Não fui atingido pela enchente. Poderia dizer que não vivi na pele
o que é passar por tal problema. Visitei na quinta-feira a tarde algumas casas.
O pessoal estava mobilizado, levantando móveis, algumas casas já tinha água
dentro. Mais uma vez, a noite, eu e o Miss. Dionei saímos para ver qual era a situação.
Ali sentimos o drama de muitas famílias. A algumas casas não tínhamos mais
acesso. Outras fizemos muitas voltas pra conseguir chegar. Se misturavam dois
sentimentos: o altruísmo, que dizia “como posso ser útil pra vocês?” e a
impotência que dizia “não tenho o que fazer contra toda esta água”. Ajudamos
alguns a levantar móveis, a se prevenir contra perdas maiores, colocamos nossos
braços e nosso espaço da Missão a disposição. Mas contra toda a chuva, o que
fazer? Orar e confiar que Deus não permitisse algo pior. Tínhamos pelo menos
uma promessa em nossas mãos: “nunca mais as águas se tornarão um dilúvio para
destruir toda forma de vida” (Gn 9.15b).
Água é o principio de toda a vida. 71% da superfície do planeta é
coberto por água. De 70 a 75% do nosso corpo é constituído por água. No
principio de tudo, quando Deus criou o mundo, havia caos sobre a terra, e um
mar primitivo estava sob o controle do Espírito de Deus. Após a criação da luz,
Deus separou as águas, colocando ordem no caos. Um firmamento separaria as
águas de baixo das águas de cima. As águas de cima do firmamento seriam as
águas do céu, que caem sobre nós como chuva, neve ou granizo. As águas de baixo
são aquelas dos rios, mares, lagoas, ou mesmo as subterrâneas.
A água é tanto essencial para a vida, quanto capaz de destruir a
vida, como no episódio do dilúvio, onde a humanidade foi salva através da arca
de Noé. A água é tanto vislumbre e local de alegria e regozijo, como numa
piscina ou no mar, como local de tragédia e pranto, quando da enchente e a
consequente destruição. A desolação provocada pelas águas sem controle, o
abismo e as águas abundantes que Deus controlou no inicio da criação virão
sobre Tiro, na profecia de Ezequiel 26.19-21. A cidade poderosa dos navegadores
será, pelo seu próprio mar, destruída. Para o povo hebreu, mar e muitas águas
são sinônimos para destruição, pois o homem não as pode controlar.
Entretanto a destruição e a catástrofe não são punição de Deus
contra pessoas em específico. A vontade de Deus em Cristo Jesus é a
reconciliação da criação com seu criador. A vontade de Deus em Cristo Jesus é a
salvação por graça e fé.
Lembremos do episódio ocorrido com aqueles 18 pessoas em
Jerusalém, quando desabou a torre de Siloé. As pessoas questionaram a Jesus se
isto havia acontecido por punição quando ao seu pecado. Se aquelas pessoas que
morreram eram mais pecadoras que as demais. Então em Lucas 13.5 Jesus responde: Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos
arrependerdes, todos igualmente perecereis.
A tragédia acontece com justos e injustos. A
enchente atinge a casa de justos e injustos. A destruição sobrevêm sobre
crentes e descrentes. A única diferença é como reagimos diante da calamidade.
Em Mateus 8.23-27 encontramos o episódio em que Jesus acalma a tempestade. A situação é diferente daquela encontrada na enchente. Mas a água
é a mesma. O pavor da água e do que a tempestade no meio do mar pode causar é
semelhante àquela da família ilhada dentro de casa com a enchente ao seu redor. O barco vai de um lado ao outro, sacudido pelas ondas. Sensação de
impotência completa. Não adianta içar velas. Não adianta remar. A água e o
vento são mais fortes. Se abraçar e se desesperar? Ou confiar que Deus pode
livrar? De qualquer forma devíamos ter a plena consciência: morrendo ou
sobrevivendo estou com Deus, pois nada poderá nos separar do amor de Deus em
Cristo Jesus (Rm 8.38-39).
Jesus tinha plena consciência de sua vida estava nas mãos de seu
Pai. Ele dormia. Aquela tempestade não lhe causava incomodo. Porém parece que os discípulos não tinha esta mesma consciência. Eles estavam
amedrontados. Se sentiam impotentes. O que fazer? Cadê o mestre nestas horas?
Ele dorme!! O relato de Marcos diz: “Não te importa que morramos?” (Mc 5.38).
Será que esta pergunta não é a mesma que nós fazemos? “Senhor, não te importas
que minha casa seja destruída?”. “Senhor, não te importas que eu perca tudo o
que demorei para construir?”. “Senhor, não te importas comigo?”.
Sempre queremos um culpado para a nossa situação de calamidade. Alguém a quem podemos
atribuir a causa de toda a tragédia. Queremos fazer de Deus o culpado daquilo
que acontece conosco. Mesmo que vistamos esta desculpa de forma piedosa, com
frases do tipo “Deus quis assim”, “Deus quer me ensinar algo”, “Deus ainda quer
que eu aprenda a viver desapegado dos bens”. É verdade que podemos aprender muitas lições por meio das
tragédias. Porém, a tragédia não é o desejo de Deus para nós. O desejo dele é a
salvação em Cristo, a reconciliação do mundo criado com seu criador.
Jesus Cristo é o único que pode dizer ao mar e ao vento: “acalmem-se!”.
O desejo de Deus, desde o principio até o fim é a ordem, e não o caos. A
edificação, não a destruição. A vida, não a morte.
Na criação Deus desfaz o caos. Na cruz Deus vence a morte. Na
Igreja pelo Espírito Santo, Deus se opõe a destruição por meio da edificação de
uma nova comunidade baseada no amor.
“Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem”? Seu nome é Jesus Cristo, filho de Deus Pai, presente no meio de
nós no poder do Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho.
Mesmo que nossa fé seja pequena. Mesmo que não consigamos
encontrar as razões de uma tragédia. Mesmo que não consigamos nos aquietar como
Jesus. Saibamos de uma coisa: por meio de Jesus Cristo podemos ser aquietados,
acalmados por meio do seu amor. Por meio de Jesus Cristo, a água que destrói se torna a água viva
a jorrar para a vida eterna. Por meio de Jesus Cristo, a água que traz morte se
torna a água do batismo, que sinaliza o lavar regenerador que Cristo concede na
sua morte e ressurreição. Através da água o povo de Israel saiu do Egito. Através da água
oito foram salvos com Noé. Através da água viva, que é Cristo Jesus, todo
aquele que crê e é batizado é salvo.
Deus transforma a água que causa morte e destruição, em água que
traz vida e renovação.
Por meio do Espirito Santo, atuante na sua comunidade de crentes,
Deus quer continuar sua obra de recriar o mundo continuamente (Sl 104.30). Deus
usa os braços, as mãos, as pernas, a força, a coragem, o caiaque, o barco, o
carro, a bicicleta, a caixa de papelão, o fogão e a geladeira de cada um de nós
para servir o vizinho, amigo, parente, irmão na fé, ou mesmo desconhecido. A
comunidade dos crentes não olha a quem está fazendo o bem, simplesmente ela
sabe e faz o bem porque já recebeu o bem maior em Cristo. Como diz Gálatas 6.10
“Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a
todos, mas principalmente aos da família da fé”.
Louvado seja Deus o Pai, criador de todas as coisas, mantenedor do
mundo, que tem o controle da história em suas mãos. Bendito seja seu filho
Jesus Cristo, o nosso redentor por meio da cruz do Calvário, o Senhor que se dá
a nós como verdadeira bebida e comida, o Senhor que nos lava e purifica no
batismo pela fé. E bendito seja o Espírito Santo, presença ativa de Deus em
nosso meio, que nos consola e anima, que nos alegra e nos concede o amor, que
nos fortalece e nos envia de volta aos nossos lares, na certeza de que sejam
dias maus úmidos e escuros, sejam dias bonitos, ensolarados e felizes, pela fé
e em amor o Deus Triúno estará conosco todos os dias até o fim dos tempos.
Amém.
[Pregação do dia 11/09/2011 na Missão Evangélica União Cristã em Timbo/SC]
