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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

As muitas águas



Não fui atingido pela enchente. Poderia dizer que não vivi na pele o que é passar por tal problema. Visitei na quinta-feira a tarde algumas casas. O pessoal estava mobilizado, levantando móveis, algumas casas já tinha água dentro. Mais uma vez, a noite, eu e o Miss. Dionei saímos para ver qual era a situação. Ali sentimos o drama de muitas famílias. A algumas casas não tínhamos mais acesso. Outras fizemos muitas voltas pra conseguir chegar. Se misturavam dois sentimentos: o altruísmo, que dizia “como posso ser útil pra vocês?” e a impotência que dizia “não tenho o que fazer contra toda esta água”. Ajudamos alguns a levantar móveis, a se prevenir contra perdas maiores, colocamos nossos braços e nosso espaço da Missão a disposição. Mas contra toda a chuva, o que fazer? Orar e confiar que Deus não permitisse algo pior. Tínhamos pelo menos uma promessa em nossas mãos: “nunca mais as águas se tornarão um dilúvio para destruir toda forma de vida” (Gn 9.15b).

Água é o principio de toda a vida. 71% da superfície do planeta é coberto por água. De 70 a 75% do nosso corpo é constituído por água. No principio de tudo, quando Deus criou o mundo, havia caos sobre a terra, e um mar primitivo estava sob o controle do Espírito de Deus. Após a criação da luz, Deus separou as águas, colocando ordem no caos. Um firmamento separaria as águas de baixo das águas de cima. As águas de cima do firmamento seriam as águas do céu, que caem sobre nós como chuva, neve ou granizo. As águas de baixo são aquelas dos rios, mares, lagoas, ou mesmo as subterrâneas.

A água é tanto essencial para a vida, quanto capaz de destruir a vida, como no episódio do dilúvio, onde a humanidade foi salva através da arca de Noé. A água é tanto vislumbre e local de alegria e regozijo, como numa piscina ou no mar, como local de tragédia e pranto, quando da enchente e a consequente destruição. A desolação provocada pelas águas sem controle, o abismo e as águas abundantes que Deus controlou no inicio da criação virão sobre Tiro, na profecia de Ezequiel 26.19-21. A cidade poderosa dos navegadores será, pelo seu próprio mar, destruída. Para o povo hebreu, mar e muitas águas são sinônimos para destruição, pois o homem não as pode controlar.
Entretanto a destruição e a catástrofe não são punição de Deus contra pessoas em específico. A vontade de Deus em Cristo Jesus é a reconciliação da criação com seu criador. A vontade de Deus em Cristo Jesus é a salvação por graça e fé. 

Lembremos do episódio ocorrido com aqueles 18 pessoas em Jerusalém, quando desabou a torre de Siloé. As pessoas questionaram a Jesus se isto havia acontecido por punição quando ao seu pecado. Se aquelas pessoas que morreram eram mais pecadoras que as demais. Então em Lucas 13.5 Jesus responde: Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.
A tragédia acontece com justos e injustos. A enchente atinge a casa de justos e injustos. A destruição sobrevêm sobre crentes e descrentes. A única diferença é como reagimos diante da calamidade.

Em Mateus 8.23-27 encontramos o episódio em que Jesus acalma a tempestade. A situação é diferente daquela encontrada na enchente. Mas a água é a mesma. O pavor da água e do que a tempestade no meio do mar pode causar é semelhante àquela da família ilhada dentro de casa com a enchente ao seu redor. O barco vai de um lado ao outro, sacudido pelas ondas. Sensação de impotência completa. Não adianta içar velas. Não adianta remar. A água e o vento são mais fortes. Se abraçar e se desesperar? Ou confiar que Deus pode livrar? De qualquer forma devíamos ter a plena consciência: morrendo ou sobrevivendo estou com Deus, pois nada poderá nos separar do amor de Deus em Cristo Jesus (Rm 8.38-39).

Jesus tinha plena consciência de sua vida estava nas mãos de seu Pai. Ele dormia. Aquela tempestade não lhe causava incomodo. Porém parece que os discípulos não tinha esta mesma consciência. Eles estavam amedrontados. Se sentiam impotentes. O que fazer? Cadê o mestre nestas horas? Ele dorme!! O relato de Marcos diz: “Não te importa que morramos?” (Mc 5.38). Será que esta pergunta não é a mesma que nós fazemos? “Senhor, não te importas que minha casa seja destruída?”. “Senhor, não te importas que eu perca tudo o que demorei para construir?”. “Senhor, não te importas comigo?”. 

Sempre queremos um culpado para a nossa situação de calamidade. Alguém a quem podemos atribuir a causa de toda a tragédia. Queremos fazer de Deus o culpado daquilo que acontece conosco. Mesmo que vistamos esta desculpa de forma piedosa, com frases do tipo “Deus quis assim”, “Deus quer me ensinar algo”, “Deus ainda quer que eu aprenda a viver desapegado dos bens”.  É verdade que podemos aprender muitas lições por meio das tragédias. Porém, a tragédia não é o desejo de Deus para nós. O desejo dele é a salvação em Cristo, a reconciliação do mundo criado com seu criador.

Jesus Cristo é o único que pode dizer ao mar e ao vento: “acalmem-se!”. O desejo de Deus, desde o principio até o fim é a ordem, e não o caos. A edificação, não a destruição. A vida, não a morte.
Na criação Deus desfaz o caos. Na cruz Deus vence a morte. Na Igreja pelo Espírito Santo, Deus se opõe a destruição por meio da edificação de uma nova comunidade baseada no amor.
“Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem”? Seu nome é Jesus Cristo, filho de Deus Pai, presente no meio de nós no poder do Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho.

Mesmo que nossa fé seja pequena. Mesmo que não consigamos encontrar as razões de uma tragédia. Mesmo que não consigamos nos aquietar como Jesus. Saibamos de uma coisa: por meio de Jesus Cristo podemos ser aquietados, acalmados por meio do seu amor. Por meio de Jesus Cristo, a água que destrói se torna a água viva a jorrar para a vida eterna. Por meio de Jesus Cristo, a água que traz morte se torna a água do batismo, que sinaliza o lavar regenerador que Cristo concede na sua morte e ressurreição. Através da água o povo de Israel saiu do Egito. Através da água oito foram salvos com Noé. Através da água viva, que é Cristo Jesus, todo aquele que crê e é batizado é salvo.
Deus transforma a água que causa morte e destruição, em água que traz vida e renovação.

Por meio do Espirito Santo, atuante na sua comunidade de crentes, Deus quer continuar sua obra de recriar o mundo continuamente (Sl 104.30). Deus usa os braços, as mãos, as pernas, a força, a coragem, o caiaque, o barco, o carro, a bicicleta, a caixa de papelão, o fogão e a geladeira de cada um de nós para servir o vizinho, amigo, parente, irmão na fé, ou mesmo desconhecido. A comunidade dos crentes não olha a quem está fazendo o bem, simplesmente ela sabe e faz o bem porque já recebeu o bem maior em Cristo. Como diz Gálatas 6.10 “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé”.

Louvado seja Deus o Pai, criador de todas as coisas, mantenedor do mundo, que tem o controle da história em suas mãos. Bendito seja seu filho Jesus Cristo, o nosso redentor por meio da cruz do Calvário, o Senhor que se dá a nós como verdadeira bebida e comida, o Senhor que nos lava e purifica no batismo pela fé. E bendito seja o Espírito Santo, presença ativa de Deus em nosso meio, que nos consola e anima, que nos alegra e nos concede o amor, que nos fortalece e nos envia de volta aos nossos lares, na certeza de que sejam dias maus úmidos e escuros, sejam dias bonitos, ensolarados e felizes, pela fé e em amor o Deus Triúno estará conosco todos os dias até o fim dos tempos. Amém.

[Pregação do dia 11/09/2011 na Missão Evangélica União Cristã em Timbo/SC]

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