Cada vez que abordamos o tema da vida e obra de Martin
Lutero há aqueles que lembrarão dos erros do grande reformador da Igreja: o
ataque aos judeus e turcos, a dura posição contra os camponeses revoltosos, as
palavras ásperas dirigidas contra a Igreja Católica.
Antes de tudo, é preciso compreender a forma com que Lutero
escrevia. O reformador não era um teólogo acadêmico sentado em sua escrivaninha
divagando sobre temas doutrinários que ninguém se interessava. Ele era um homem
com profundas ligações com seu povo e sua Igreja. Compreendia bem os dilemas da
vida e seus escritos sempre refletem alguma circunstância cotidiana.
A primeira grande “pisada na casca da banana” de Lutero foi
uma carta chamada “Adendo à Exortação à Paz”. É o terceiro escrito de Lutero
numa sequência progressiva de debates contra os camponeses que desejavam uma
reforma radical com a implantação do Reino de Deus por meio da força física, se
necessário. Lutero utiliza a compreensão dos Dois Reinos para lhes explicar que
por um lado os camponeses tem direito de reclamar dos maus tratos, mas por
outro lado devem se sujeitar a autoridade e não utilizar de violência.
Entretanto, os camponeses ao perceberem que Lutero poderia estar do lado deles,
intensificaram os ataques, sendo liderados por Thomas Müntzer.
A resposta de
Lutero vem no “Adendo”: os camponeses são rebeldes contra a autoridade; tem
cometido assassinatos e roubos; e abusam do Evangelho. Por isto a recomendação
as autoridades, caso os meios pacíficos falhem:
Negociar mais uma vez; colocar a situação em oração; negociar e só então
pegar nas espadas, pois se não coibir a violência dos camponeses está pecando.
Este
escrito é controverso, usado pra criticar a Reforma de Lutero e a distinção dos
dois regimentos. Isto se deve ao fato de o escrito ter vindo à tona exatamente
após o massacre de camponeses em Frankenahausen. O “panfleto” foi utilizado
como legitimação teológica para a continuidade do massacre aos camponeses em
outros lugares. Príncipes entenderam o escrito como favorável a suas posições
enquanto que os camponeses entenderam como uma traição de Lutero. A posição de
Lutero não desencadeou o massacre, mas deu legitimidade para o que já havia
ocorrido e para os massacres que estavam em curso, desta forma, sua repercussão
foi funesta, tanto que Lutero sentiu-se obrigado a escrever a “Carta aberta a respeito do rigoroso livrinho
contra os camponeses” onde o reformador ratificou sua posição defendida no Adendo, mas reafirmava que após a
rebelião ser sufocada os príncipes deveriam agir com misericórdia.
Uma segunda questão polêmica é sobre os escritos “Contra
Hanswurst” (1541) e “Contra o papado em Roma, fundado pelo demônio” (1545).
Anteriormente Lutero já havia condenado abusos do papado e se posicionado
contrario a uma série de práticas de Roma. Mas com os frequentes embates entre
os Católicos liderados por Wolfenbütel e os evangélicos da Liga de Schmalkalden
Lutero se posicionou de forma bastante rude. Definiu o papa, bispos e cardeais
como porcos, asnos, mentirosos, assassinos e hipócritas. Há ainda figuras mais
drásticas dentro do escrito, mas apesar disto tudo Lutero utilizou de
argumentos teológicos e bíblicos bem fundamentos para o ataque. Este texto não
é um panfleto ideológico sem argumentação concisa!
Por último a questão mais controversa de todas: a opinião de
Lutero sobre os judeus. Há que se dizer que o Lutero mais jovem tinha uma
posição mais favorável aos judeus. No escrito “Que Jesus Cristo nasceu judeu”
(1523), o reformador expos a respeito da importância de expor a verdade do
Evangelho ao povo judeu de forma que o reconheçam como o Messias e retornem a
fé dos pais e profetas.
Em muitos assuntos a posição de Lutero no final da vida foi
bem mais dura e incisiva do que nos tradicionais escritos reformatórios da
década de 20-30, muito provalvemente Lutero sofria com crises depressivas e
saúde debilitada. O reformador sempre esteve no centro dos embates entre
oponentes cujo poder político e econômico suplantavam em muito o de um simples
professor de Bíblia.
Voltando à questão dos judeus, no final da vida Lutero
escreveu 3 textos sobre os judeus. Em primeiro lugar ele ataca a exegese
rabínica. Lembrando que Lutero era professor de Bíblia, e sempre expôs a
Escritura com o princípio “do que promove a Cristo”, além de interpretar o
Antigo Testamento sob a ótica trinitária. Os judeus, obviamente, não teriam
este tipo de leitura e Lutero se opõe a sua maneira de fazer exegese
. O que
Lutero desejou num primeiro momento era mostrar aos companheiros evangélicos
que não era saudável utilizar a exegese rabínica, por causa dos seus
pressupostos. Lutero também reutilizou algumas das mais cruéis acusações,
comuns entre a população da época, contra os judeus. É claro que muitos se
assustaram com a posição de Lutero, mas tais escritos ganharam pouca
importância naquela época,
sendo trazidos de volta a tona por movimentos
anti-semitas posteriores.
O que se pode dizer destas 3 grandes controvérsias é que
Lutero não media as palavras quando argumentava. Ao mesmo tempo em que
apresentava sólida argumentação teológica, exegética e histórica, também se
utilizava de fraseologia, figuras e exemplos do cotidiano, muitos dos quais
eram preconceituosos e excessivamente duros contra os acusadores. Há que se
lembrar por exemplo das manias de Lutero de apelidar opositores. Por exemplo, o
grande humanista Erasmo de Roterdã havia escrito a “Diatribe sive colatio” e
dedicado a obra à Lutero. Lutero agradece, e escreve “De Servo Arbitrio” (200
páginas!) contra Erasmo, onde o chama de “sapo coaxante”. Não podemos endossar todas as formas de
Lutero escrever, ainda que a base de sua teologia seja boa e bem fundamentada.
Fica a dica: “julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1Ts 5.21).
Alexander Stahlhoefer